Por que fechar os olhos pode aumentar a sensação de desequilíbrio? - Dr. Rodrigo

Por que fechar os olhos pode aumentar a sensação de desequilíbrio?

O papel da visão no equilíbrio

Manter o corpo equilibrado parece uma tarefa automática, mas depende da integração constante de diferentes informações sensoriais. O cérebro utiliza principalmente sinais provenientes da visão, do sistema vestibular, localizado no ouvido interno, e da propriocepção, que informa a posição e os movimentos do corpo por meio de músculos, articulações e estruturas dos pés. Quando essas informações chegam ao cérebro, elas são combinadas para permitir que o corpo faça os ajustes necessários para permanecer estável.

Por isso, é comum perceber uma piora do equilíbrio ao fechar os olhos. Isso não significa necessariamente que exista um problema na visão. Ao eliminar a referência visual, o cérebro perde uma importante fonte de informação sobre a posição do corpo em relação ao ambiente e precisa depender mais dos sistemas vestibular e proprioceptivo.

O que acontece quando fechamos os olhos?

Com os olhos abertos, podemos utilizar referências visuais para saber se estamos inclinados, se estamos nos movimentando ou se estamos desviando da posição em que deveríamos estar. Uma parede, o chão, um móvel ou qualquer outro objeto fixo no ambiente fornece informações que ajudam o cérebro a organizar a postura.

Quando os olhos são fechados, essa referência deixa de existir. O sistema nervoso precisa aumentar a utilização das informações provenientes do ouvido interno e da propriocepção para controlar a posição corporal. Em pessoas saudáveis, esse processo geralmente acontece sem grandes dificuldades, embora seja esperado algum aumento da oscilação corporal. Estudos mostram que a estabilidade postural pode ser significativamente menor com os olhos fechados do que com os olhos abertos.

E quando o desequilíbrio fica muito maior?

Uma diferença muito acentuada entre manter os olhos abertos e fechados pode chamar atenção para a maneira como os diferentes sistemas responsáveis pelo equilíbrio estão funcionando.

Pessoas com alterações vestibulares, por exemplo, podem depender mais da visão para conseguir se orientar e permanecer estáveis. Quando essa referência é retirada, a dificuldade pode se tornar mais evidente. Em casos de perda vestibular bilateral, por exemplo, a oscilação corporal pode aumentar bastante quando os olhos são fechados, especialmente em situações que também dificultam a percepção da posição dos pés e das pernas.

Isso não significa, porém, que toda pessoa que fica mais instável ao fechar os olhos tenha uma doença vestibular. Essa reação pode fazer parte do funcionamento normal do sistema de equilíbrio. A intensidade do sintoma, sua frequência e a presença de outros sinais é que ajudam a determinar se existe necessidade de investigação.

O cérebro consegue compensar?

Sim. O sistema nervoso possui capacidade de reorganizar a importância dada a cada informação sensorial. Quando uma das fontes de informação fica menos confiável, o cérebro pode aumentar sua dependência das outras. Esse processo, conhecido como integração ou reorganização sensorial, é importante para a adaptação do equilíbrio.

É justamente por isso que exercícios de equilíbrio e reabilitação vestibular podem fazer parte do tratamento de algumas alterações. O treinamento pode estimular o cérebro a utilizar de maneira mais eficiente as informações disponíveis e desenvolver estratégias para lidar melhor com situações em que uma das referências sensoriais é reduzida.

Quando procurar avaliação?

Se fechar os olhos provoca apenas uma pequena sensação de instabilidade, especialmente em situações desafiadoras, isso pode ser uma resposta normal. Entretanto, tontura, vertigem, desequilíbrio importante ou sensação de que vai cair ao retirar a referência visual merecem atenção quando são frequentes, novos ou estão interferindo na rotina.

Uma avaliação médica otoneurológica pode ajudar a identificar como estão funcionando os sistemas vestibular, visual e proprioceptivo e como o cérebro está integrando essas informações. A partir disso, é possível entender melhor a origem do desequilíbrio e definir a conduta mais adequada.

O equilíbrio não depende de um único órgão. Ele é resultado de uma verdadeira conversa entre olhos, ouvido interno, corpo e cérebro. Quando uma dessas fontes de informação é retirada, como acontece ao fechar os olhos, as outras precisam assumir uma participação maior. É por isso que uma simples mudança pode revelar dificuldades que, com os olhos abertos, passam despercebidas.